Episódios históricos

Sabemos que o arroz é indispensável para grande parte da humanidade, dado que constitui a base da dieta diária de quase dois mil milhões de pessoas.

Ao longo dos séculos, forjou-se um sem fim de histórias a seu respeito, que demonstram a importância deste cereal na alimentação mundial.

Na China, por exemplo, pergunta-se, à guisa de saudação: “Já comeste a tua porção de arroz?”. Se a resposta for afirmativa, significa que a pessoa está bem. Esta anedota não implica que o arroz seja um alimento exclusivo dos asiáticos. Na realidade, um terço da população considera este cereal insubstituível para sobreviver. Existem pessoas em todo o mundo que, se não contarem com um prato de arroz à sua mesa, sentem a sua dieta como incompleta. Alguns historiadores afirmam que este cereal é originário do Sudeste asiático e que se cultiva há mais de sete mil anos. Existem evidências do seu consumo anteriores ao ano 5000 a.C. no leste da China e do ano 6000 a.C. numa caverna do norte da Tailândia.

A nacionalidade do arroz é objecto de controvérsia, tal como a sua história. Estudiosos do tema consideram que o arroz é oriundo da Ásia meridional, porque cresce selvagem na Índia, na Indochina e na China. Embora seja certo que, nestas zonas, muitas variedades se desenvolvem espontaneamente desde épocas muito antigas, outros investigadores afirmam que é originário da África, tendo depois passado para a Ásia. Uma terceira hipótese assegura que surgiu simultaneamente nos dois continentes. Indiscutível para todos é que se trata de um dos alimentos mais antigos da humanidade.

Os livros de História referem que, na Pérsia e na Mesopotâmia, se conheceu o arroz através dos intercâmbios diplomáticos e comerciais do rei persa Dario com a China e com a Índia. Nos testemunhos da época, afirma-se que o imperador chinês Sheng Nung (ano 2700 a.C.) realizava uma cerimónia em que se semeavam cinco cereais: arroz, trigo, milho painço, soja e sorgo. No entanto, ele próprio semeava o arroz, outorgando-lhe, assim, um maior valor.

Posteriormente, durante a expansão da China para ocidente, o arroz difundiu-se pelo Egipto e Síria. No ano 300 a.C., o botânico e filósofo grego Teofrasto cita o oruzum como uma planta exótica desconhecida do seu povo. Outros investigadores assinalam nos seus estudos uma classificação agrícola e alimentar preliminar do arroz. Descrevem que a sua origem teve lugar na região central do sudoeste da Ásia e fixam dois centros, a Índia e a Birmânia.

De acordo com os historiadores, entre os gregos e os romanos, o arroz era considerado uma espécie exótica de luxo procedente do oriente, consumida apenas pelas pessoas mais ricas da sociedade. Na época de Nero, o médico grego Dioscórides descreve a cultura como um elemento muito eficaz para os problemas gastrointestinais. Pela sua parte, os latinos Horácio, Plínio e Columella recomendavam o seu uso como tisana. Dizem que foi Alexandre o Grande quem trouxe o arroz como alimento do Médio Oriente.

Os espanhóis afirmam que foram os árabes, estabelecidos no reino de Al-Andalus, os responsáveis pelos primeiros arrozais. O certo é que o arroz foi um artigo muito caro durante toda a Idade Média.

A história regista como de destaque o episódio do conde de Sabóia que, no ano 1250, comprou uma certa quantidade de arroz para a preparação de doces para a sua corte.
Por essa altura, o arroz não se cultivava em Milão, mas era importado da Ásia e só se encontrava em lojas especializadas. É nos finais do século XVIII que a família Visconti decide introduzir os arrozais nas suas terras e nascem, assim, os primeiros arrozais italianos.

A história afirma que o arroz chegou à América Latina durante a segunda viagem de Cristóvão Colombo. Relativamente à América do Norte, foi um barco holandês procedente de Madagáscar que o introduziu em 1685.

Nas narrações orais mais antigas, o arroz é descrito como uma divindade hindu. Trata-se de uma dádiva do céu, presenteada por Deus ao ser humano para mitigar a fome. Mas, para o obter, é necessário aplicar grandes esforços no seu cultivo.

Na nossa cultura, desde crianças aprendemos que o arroz é símbolo de fertilidade e abundância e, por isso, é tradicional atirar arroz por cima das cabeças dos noivos após o casamento, para lhes desejar felicidades, um bom futuro e uma prole numerosa.

É provável que a tradição americana tenha chegado através dos costumes orientais, porque o arroz é, entre os xintoístas, o alimento indispensável de uso ritual, como o pão para o catolicismo. O imperador japonês celebra uma cerimónia em que partilha o arroz com a Deusa do Sol, para oferecer a luz da sabedoria. Simboliza a salvação da espécie humana e a sua regeneração.